A contemporaneidade visceral de “Morte e vida Severina”
- Redação

- 2 de jun. de 2019
- 3 min de leitura
As verdades históricas e atuais que são retratadas no teatro por meio das palavras de João Cabral de Melo Neto

A força da obra é tão grande, que o governo de São Paulo distribui um livro com vários poemas de João Cabral, incluindo “Morte e vida Severina”/ Foto: Carla Mendes
“Morte e Vida Severina”, é um poema publicado pela primeira vez em 1955. Lírico e dramático, narra a trajetória de Severino, um pernambucano que decide abandonar o sertão e partir rumo à Recife, em busca de uma vida mais amena. O sertanejo faz a caminhada às margens do rio Capibaribe, e durante o percurso encontra um rastro de dor e miséria, tudo remete a morte, inclusive o próprio rio.
“Ter tocado nesse assunto em pleno processo de industrialização, era questionar frontalmente o modelo que estava sendo imposto, em um regime autoritário (Era Vargas) ”. Comenta o historiador Saverio Lavorato Jr. sobre o lançamento literário da obra e posteriormente as adaptações para teatro, cinema e tevê.
Após êxito do material impresso, em 1965 o Teatro TUCA (Teatro Universidade Católica) faz a primeira adaptação para os palcos, sob direção de Silnei Siqueira. A montagem foi um sucesso e recebeu dois prêmios no IV Festival de Teatro de Nancy, em 1966, o grupo foi convidado a levar a produção aos palcos franceses fazendo a apresentação em português.

O Teatro TUCA ainda recebe espetáculos dos mais variados / Foto: Carla Mendes
A atualidade da marcha de Severino surpreende: “A obra em si deve ser pensada, ela nunca virou passado, se tornou constante”. Saverio reforça o fato de que mais de 60 anos depois do poema ter sido escrito, os problemas que derivam fluxos migratórios continuarem existindo.
É importante observar que a história vêm desde 1965 sendo encenada de maneira amadora ou profissional, incessantemente. Uma companhia de teatro da França, Cia Amaü, composta por dois brasileiros no elenco, adaptou e traduziu o texto para o francês. A estreia ocorreu no Festival Acte & Fact 2017, como reflexão sobre a crise migratória que assola a Europa.
“Estamos criando abismos nas relações entre as classes, diante de questões tão essenciais que são os direitos básicos”
- Bia Ramesthaler
“A problemática e a forma com que João Cabral coloca, tem um caráter universal interessantíssimo, falar de migrantes e fluxos migratórios, é falar dos problemas que atingem a Europa, é global”. Conclui Saverio, ao se surpreender com a notícia que a peça foi levada à França.
Em 1994, o Grupo de Conclusão de Curso Técnico de Formação do Ator do Teatro Celia Helena, em São Paulo remontou o espetáculo. “Foi uma experiência riquíssima, primeiro porque o diretor era Silnei Siqueira. Podemos entender como foi o processo em 1964, que foi trabalhado em plena ditadura militar”. Relembra Bia, que era uma dos formandos e se emociona ao lembrar de uma das experiências mais gratificantes que teve, em relação ao teatro.
Foram 30 atores, todos protagonistas, afinal a mensagem era: somos muitos Severinos, iguais em tudo na vida.

O sucesso rendeu ao grupo um convite do Memorial da América Latina para uma apresentação histórica, juntamente com os atores de 64 / Foto: Arquivo pessoal de Bia Ramesthaler
A peça não está em cartaz atualmente, porém o tema central vive em constante debate: a migração e a imigração são constantes. Seja devido a miséria africana, as inúmeras guerras que afetam o Oriente Médio, a crise política e financeira que atinge a Venezuela, e ainda, quase sete décadas depois de João Cabral ter escrito o poema, a seca e miséria ainda assolam os sertões nordestinos.
“Ter tocado nesse assunto em pleno processo de industrialização, era questionar frontalmente o modelo que estava sendo imposto”
- Saverio Lavorato Jr
Sobre o período atual em que estamos inclusos, Bia faz a seguinte reflexão: “O quanto, novamente, estamos acirrando as diferenças. Dentro de contextos sociais vividos hoje, estamos criando abismos nas relações entre as classes, diante de questões tão essenciais que são os direitos básicos. Estamos trazendo de volta questões que tinham ficado minimamente resolvidas na última década”. Até quando os cidadãos do mundo serão eternos serão Severinos?
Saiba mais sobre fluxos migratórios em:
Refúgio no Brasil: caracterização dos perfis sociodemográficos dos refugiados (1998-2014):
Deslocamento forçado supera 68 milhões de pessoas em 2017 e demanda novo acordo global sobre refugiados:





Comentários